Nem tudo é óbvio: como o senso comum pode prejudicar a compreensão do que você diz

Flavia Gamonar

“O senso comum é um mito”, diria Duncan Watts, sociólogo e pesquisador. Ele afirma que não importa onde vivemos, nossa vida é sempre guiada e modelada por regras que dominamos e que não estão escritas em nenhum lugar, mas esperamos que pessoas razoáveis as conheçam.

O senso comum é a peça milagrosa da inteligência humana, essencial para funcionarmos no dia a dia. É exatamente ela que faz com que saibamos nos vestir para cada contexto, nos comportarmos na rua e manter relações harmoniosas com pessoas. É tão impregnado em nós, apesar de nunca terem parado para nos ensinar cada uma dessas “regras invisíveis”, que não apenas as conhecemos, mas somos capazes de saber também o que pode ser ignorado e o que deve ser cumprido à risca sem parecermos nerds demais. Como diria Watts, “é o conjunto pouco organizado de fatos, observações, experiências, revelações e gotas de sabedoria adquirida que cada um de nós acumula ao longo da vida, na trajetória de encontros, enfrentamentos e aprendizados das situações rotineiras”.

O senso comum é algo profundo, curioso e rico. Em um metrô, não será estranho encostar em alguém se o vagão estiver muito cheio, mas será péssimo se ele estiver vazio. O mesmo em um elevador: estando só você e outra pessoa, será extremamente estranho e incômodo se ela parar de frente para seu rosto e ficar olhando seus olhos. Como seres humanos envolvidos na cultura em que o metrô e o elevador são coisas cotidianas, parece senso comum afastar-se ou aproximar das pessoas. Entretanto, é tão complexo que ainda não conseguimos formalizar esse conhecimento todo que acumulamos durante anos. É por isso que ensinar um robô a imitar uma variedade de comportamentos humanos não é fácil, simplesmente porque seria preciso ensinar a ele exatamente TUDO sobre o mundo.

O senso comum tem algumas peculiaridades intrigantes, porque muda ao longo do tempo e entre culturas. Para as tribos Au e Gnau, da Papua Nova Guiné, por exemplo, ganhar dinheiro de alguém em uma aposta ou jogo não parece algo vantajoso. É que em seus costumes, sempre que alguém ganha um presente fica obrigado a dar algo em troca no futuro, assim, o que seria uma vantagem para um ocidental, torna-se uma obrigação indesejada para os membros dessa tribo.

Watts destaca que entendemos a justiça e a reciprocidade como princípos do senso comum em nosso mundo, que de maneira geral devem ser respeitados e defendidos quando violados sem uma boa razão, mas esses entendimentos são nossos e podem ser diferentes de outras sociedades pré-industriais, que possuem seu próprio conjunto implícito de entendimentos sobre a maneira que o mundo deve funcionar. Esses entendimentos podem ser diferentes dos nossos, mas uma vez aceitos, sua lógica de senso comum funciona da mesma maneira que a nossa, “é simplesmente o que qualquer pessoa racional faria se tivesse nascido naquela cultura”.

O senso comum é comum apenas enquanto duas pessoas dividem experiências sociais e culturais suficientemente similares. Em outras palavras, ele depende do conhecimento coletivo tácito, isto é, codificado nas normas sociais, costumes e práticas do mundo.

O que parece normal para um ser humano, pode ser considerado repugnante para outro. É por isso que a escravidão humana, sacrifícios, canibalismo, mutilações, dentre outras práticas são rejeitadas por culturas contemporâneas, mas consideradas legítimas em diferentes épocas e lugares. É por isso também, que sentimos vergonha de coisas que fizemos ou dissemos há dez, quinze ou vinte anos atrás e que hoje não seriam assim.

Como o senso comum nos engana

O que é evidente para uma pessoa pode parecer tolo ou desconhecido para outra. Isso nos leva a pensar sobre a confiabilidade do senso comum para compreender o mundo, afinal, diariamente estamos diante de questões que podem ser o certo para alguém e o errado para um outro. Isto é, o senso comum está mais para um saco de crenças logicamente inconsistentes e contraditórias do que para uma visão do mundo. Se fosse necessário explicarmos o senso comum e todas as explicações que o envolvem, cairíamos em contradições.

Diariamente tentamos entender o mundo sob nossas próprias lentes. Vemos notícias sobre conflitos em outros partes do mundo que ao serem analisados por nossa lógica de senso comum não fariam nenhum sentido. Até sugerimos possíveis formas de solucionar aquela questão, mas a verdade é que por não estarmos inseridos naquela cultura e realidade, julgamos sem fundamentos reais. Olhamos apenas uma das pecinhas e ignoramos todo o resto. E nisto entram fortemente política, economia e direito. É exatamente por isso que para um libertário não faz muito sentido o que pensa um conservador, e vice-versa. É porque não significa que você viva no mesmo país ou cultura de alguém, que analise as coisas com a mesma medida, afinal, cada um viveu uma história e trajetória própria até chegar ali.

Participar do mundo social facilita nossa habilidade em entendê-lo. Porém, a combinação da intuição, experiência e sabedoria, nos quais nos baseamos para gerar explicações de senso comum, disfarçam erros de raciocínio. Um deles é que pensamos que as pessoas fazem o que fazem por fatores como incentivos, motivações e crenças, mas fatores externos podem influenciar nessas ações. Por mais que tentemos nos colocar no lugar do outro, sempre vamos cometer erros ao prever como alguém vai se comportar dali para frente, esperar que seja de determinada forma, de acordo com o nosso senso.

Em resumo, o que é óbvio para uma pessoa ou cultura, não será para outra.

E essa é uma questão que precisa ser considerada quando falamos em conteúdo e influência se quisermos ser originais, relevantes e verdadeiramente nos conectarmos com o público. É sobre ter em mente que aquela pode ser a primeira vez que alguém ouve falar sobre aquilo. Que ela não acompanhava você antes, que não viu o capítulo ou texto anterior, que não necessariamente conectou todos os pontos em sua cabeça para entender plenamente a mensagem. Que de repente ela veio de fora, de outro contexto ou cultura, que leu algo de uma época diferente e completamente sem contexto. Que traduziu e as palavras se perderam, porque aquela frase carregava algo muito além do simples significado e que ao ser traduzido deixou de fazer sentido.

O senso comum e a produção de conteúdo

Ser original é o oposto do senso comum. É que para produzir bons conteúdos será preciso apresentar argumentos autênticos, evitando clichês. Ao escrever usamos nossas competências linguísticas, a coerência e a coesão, as normais gramaticais, a estrutura do texto para que o que produzimos seja entendido. Entretanto, vai além disso. Lugares-comuns e clichês podem empobrecer sua produção e limitá-la à um contexto ou grupo de pessoas menor. Fechar-se completamente em suas ideias, acreditando que o mundo só existe naquela lupa, é criar algo pobre e limitado, que não será bem compreendido.

Ao abordar assuntos, convém saber que eles nunca serão igualmente apreciados ou defendidos por outras pessoas, que podem pensar sobre ele de uma forma diferente, mesmo que estejam no mesmo país ou cultura que você.

Nunca estaremos livres desse risco, mas ao criar conteúdo seria bom podermos ao menos ter mais consciência do que levamos adiante.

Criar conteúdo sempre será sobre posicionar-se sobre um determinado assunto, buscando convencer o interlocutor de que você tem razão no que afirma, mesmo que você imagine que esteja sendo o mais neutro possível. Argumentos e explanações ajudarão o outro a entender o contexto.

Conscientizar-se sobre o que você escreve e como outras pessoas o entenderão é um caminho justo para diálogos e trocas ricas. É perceber, de antemão, ajustes necessários na mensagem. É sobre ter claro em sua mente que por mais que você tenha todos os argumentos do mundo para defender aquela ideia, em contexto, lugar ou momento algum ela será plenamente compreendida ou aceita pelo mundo todo. E que inclusive os argumentos que você acha serem os mais corretos da vida, podem ser entendidos de forma completamente diferente pelo outro.

Isso passa até mesmo pela imagem que você escolhe para a capa do seu artigo. Imagens pode complementar um título ou até contrastar a ideia apresentada para gerar curiosidade pela leitura ou reprodução do vídeo. Por exemplo, produzir um artigo sobre a necessidade de ser autêntico e apostar no truthtelling (não apenas no storytelling) e usar a imagem de um pinóquio na capa pode ser incrível e gerar uma associação entre opostos: o nariz grande do Pinóquio remetendo à mentira, enquanto o texto enfatiza no titulo a importância da realidade, autenticidade, verdade. Soaria completamente fantástico se não exigisse que toda e qualquer pessoa que o viu precisasse conhecer anteriormente a história do boneco de madeira para compreender as nuances da escolha. E todo aquele que não for capaz de gerar essa associação, sentirá-se “boiando”, completamente por fora e aí apenas parte do seu conteúdo a terá tocado, outra poderá parecer, inclusive, completamente fora de contexto. Aliás, a capa desse artigo é um desses exemplos, o senso comum permite nossa cultura entender que o sinal de bater a mão na cabeça e até mesmo dizer um “dã”, remetem à algo óbvio. Mas agora já sabemos que nem tudo é tão óbvio assim 😉

Referência consultada:

Tudo é óbvio, desde você saiba a resposta: como o senso comum nos engana. Duncan Watts.

Saiba mais sobre treinamentos, palestras e cursos sobre como melhorar sua comunicação, compreensão e produção de conteúdo: contato@fgeducacao.com.br

Compartilhe :

LinkedIn
Facebook
Twitter
Telegram
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Solicite

um serviço